O tema do servitium amoris, já presente nos versos de Tibulo, Propércio e Ovídio, alude à com-pleta sujeição e subordinação do poeta à mulher amada. É na segunda metade do século IV que o poeta romano Ausónio dá a este motivo uma viragem inesperada e paradoxal, identifi-cando a figura canónica da domina elegíaca na jovem escrava germânica Bissula, recebida como presente do imperador Valentiniano. No breve cancioneiro amoroso dedicado à moça sueva evidencia-se, desta maneira, o tópico da beleza invulgar e estrangeira, bem como o da in-versão, possibilitada pela paixão amorosa, nas relações de domínio entre senhor e escrava. Nesta obra de Ausónio, poeta imitado e traduzido por autores quinhentistas portugueses como António Ferreira e Pero de Andrade Caminha, podemos identificar, assim, um interes-sante termo de comparação para as famosas endechas camonianas dedicadas a uma “cativa com quem andava de amores na Índia, chamada Bárbora”. Com efeito, Camões destabiliza e sub-verte neste poema, de forma análoga, os estereótipos da poesia amorosa do seu tempo, criando um retrato feminino em que, como assinala Rita Marnoto, “o cânone petrarquista é chamado à ribalta para ser posto em causa” (2007: 92).
Aquela cativa: il motivo della schiava straniera tra Ausonio e Camões
REI Matteo
2025-01-01
Abstract
O tema do servitium amoris, já presente nos versos de Tibulo, Propércio e Ovídio, alude à com-pleta sujeição e subordinação do poeta à mulher amada. É na segunda metade do século IV que o poeta romano Ausónio dá a este motivo uma viragem inesperada e paradoxal, identifi-cando a figura canónica da domina elegíaca na jovem escrava germânica Bissula, recebida como presente do imperador Valentiniano. No breve cancioneiro amoroso dedicado à moça sueva evidencia-se, desta maneira, o tópico da beleza invulgar e estrangeira, bem como o da in-versão, possibilitada pela paixão amorosa, nas relações de domínio entre senhor e escrava. Nesta obra de Ausónio, poeta imitado e traduzido por autores quinhentistas portugueses como António Ferreira e Pero de Andrade Caminha, podemos identificar, assim, um interes-sante termo de comparação para as famosas endechas camonianas dedicadas a uma “cativa com quem andava de amores na Índia, chamada Bárbora”. Com efeito, Camões destabiliza e sub-verte neste poema, de forma análoga, os estereótipos da poesia amorosa do seu tempo, criando um retrato feminino em que, como assinala Rita Marnoto, “o cânone petrarquista é chamado à ribalta para ser posto em causa” (2007: 92).| File | Dimensione | Formato | |
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Descrizione: Matteo REI, Aquela cativa
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